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Dono da Gibiteria comenta seis HQs que fizeram sua cabeça

MAYRA MALDJIAN, Folha de São Paulo 08/07/2011

Há um ano e meio, Octávio da Costa Eduardo Jr., 61 anos, ganhou de presente uma mudança de vida. Ana, 24, sua única filha, deu a ele a Gibiteria, uma simpática loja de gibis e afins instalada na Benedito Calixto, famosa praça do bairro paulistano de Pinheiros.

"De uns cinco anos para cá comecei a pensar em mudar de vida", conta Octávio, que foi abandonando aos poucos a rotina estressante de executivo em multinacional. "Gosto tanto de livros que poderia virar livreiro", pensou. A especialidade veio numa piscadela: histórias em quadrinhos. "São mais de 50 anos lendo gibis, apaixonadamente."

Pronto, meio caminho andado. Apesar de ter demorado um bocado, segundo ele, a materialização de sua paixão por histórias em quadrinhos nunca esteve tão perto de acontecer.

"Eu sempre fui um pouco maluco beleza, um pouco da contracultura (tenho uma estante aqui cheia de livros da geração beat e congêneres). Quadrinhos é uma coisa meio cult hoje em dia, ainda não entrou para o 'mainstream', então dá para exercitar um pouco um certo espírito marginal que identifico em mim."

Ana, então, arregaçou as mangas: planejou, desenhou e montou toda a Gibiteria, dos móveis aos marcadores de livro. Serviço completo. O nome? Sugestão dela.

"E pra mim, o que sobrou? Quase nada, só ler gibi", brinca. A convite do Folhateen, Octávio listou e comentou seis HQs que fizeram e ainda fazem a sua cabeça. Leia abaixo:

LORD GREYSTOKE E PRÍNCIPE VALENTE

Como os pais de um garoto de oito anos de idade conseguem segurá-lo quieto, acamado, por seis meses? Os meus, quando tive hepatite, compraram pilhas e pilhas de gibis.

A bem da verdade é que minha leitura de gibis começou com um livro: "Tarzan", de Edgar Rice Burroughs. Foram dez livros na sequência.

E a imaginação, a fantasia, corriam soltas: eu na selva mais escura e impenetrável, caçando com o macaco de pele branca, inglês, o próprio lorde, lord Greystoke. A sensação era de estar lendo um gibi legal.

Harold Foster e Joe Kubert concretizaram em imagens minha imaginação. Deram ao Tarzan o tratamento visual que a minha fantasia criara.

"Tarzan", de Joe Kubert, está em dois álbuns da Devir. Um deles já temos e o volume dois está estourando por aí.

Harold Foster completou minha cura apresentando-me, também, o Príncipe Valente, cavaleiro da Távola Redonda, companheiro de Artur, Gawain e Lancelot, vivendo aventuras perigosas em lugares desconhecidos e misteriosos. Muitos duelos de lança e espada, alguma feitiçaria e até uma boa dose de romance. Ah, como eu amei Aleta, rainha da Ilhas Nevoentas, amor de Valente. Eu era Valente.

Eu tinha quase toda a coleção, em formatinho. Hoje a coleção é encontrada em "formatão", 16 álbuns grandes lançados há já algum tempo por Ebal e Opera Graphica, duas editoras ótimas que ficaram na saudade. E deixaram valiosa herança.

SANDMAN

"Sandman" foi um marco divisor na história das histórias em quadrinhos. "Fora do comum", pode-se assim descrevê-lo. Terror, mistério, suspense, altamente inteligentes. Mitologias tradicionais, Shakespeare e outros ilustres literatos ingleses, entram em algumas tramas e desempenham papeis importantes, o que enriquece as histórias.

Imaginem 75 meses juntando as revistinhas da primeira edição lançada no Brasil, pela Editora Globo. Tanta espera, tanta ansiedade.

São vários arcos de história, que fazem um todo. É a humanidade relacionando-se com o panteão imaginado por Neil Gaiman e Dave Mackean, que é formado pela família de Sandman, este o deus do sonhar (em inglês Dream). Família esquisitíssima, os sete Perpétuos: Morte (Death), Destino (Destiny), Desespero (Despair), Desejo (Desire), Delírio (Delirium) e Destruição (Destruction). Notem que em inglês todos os nomes começam com a letra D.

Hoje existe a edição da Conrad, em dez volumes, mas alguns números já são difíceis de achar. E a nova edição da Panini, que completa terá quatro volumes enormes (acabou de sair o segundo). Toda a história encadernada. Tanta reedição só pode ser porque é bom mesmo. Bom mesmo, entendeu?

V DE VINGANÇA

"V de Vingança", uma paulada no autoritarismo. Uma história sobre liberdade. Conta a luta de um único homem --V-- contra todo um regime autoritário, estilo "grande irmão". Mais do que uma revolução social, porém, é a história de uma revolução pessoal, de uma transformação da consciência, da libertação de todos os medos e condicionamentos no caminho do ser consciente. E dos efeitos disso sobre a sociedade.

Um romance em quadrinhos. Um poema. Chorei quando cheguei ao fim. "Remember, remember the fifth of november". Vá ler para saber o que isso significa.

WATCHMEN

Outro marco divisor nos quadrinhos. Depois de "Watchmen", o mundo dos super-heróis perdeu a inocência, a pureza e as feições juvenis para virar coisa de gente grande. Chegou a era das conspirações e nunca houve conspiração maior do que a de Watchmen. "Who watches the Watchmen?" [Quem vai vigiar os vigilantes?], uma frase pixada em um muro de um quadrinho da graphic novel.

"Watchmen" representou um salto qualitativo nas HQs de super-heróis: a pura fantasia é substituída pela realidade fantástica. Isto é, em nenhum momento se diz que isso é impossível ou que aquilo não existe. A história é possível, os personagens são possíveis.

Aliás, personagens complexas, politicamente, filosoficamente, psicanaliticamente, formam o grupo de heróis. As relações entre eles fogem do branco e preto que sempre definiram o bem e o mal e ganham uma grande multiplicidade de tons cinzas. Questões morais são seriamente abordadas.

Alan Moore, o genial criador desta HQ --e também de "V de Vingança" e outros grandes clássicos dos quadrinhos-- supera-se em "Watchmen", ao incluir na história principal uma segunda história, um segundo gibi, "Contos do Cargueiro Negro", lido por um personagem da primeira história. Um exercício de metalinguagem que acentua o clima de suspense e terror da história principal.

Cheio de surpresas, "Watchmen" é inesquecível.

LOBO SOLITÁRIO

The best. O meu gibi de cabeceira. E de Frank Miller também, conforme comentários. Bushidô, Zen e muita ação, numa fantástica trama de traição e vingança no Japão feudal. São 28 volumes, editados pela Panini, em formato pequeno de mangá.

KICK ASS - QUEBRANDO TUDO

Diz a contracapa: "Os autores levam os quadrinhos de super-heróis a um patamar inteiramente novo na mais ousada, intensa, violenta e inovadora aventura já criada. Você nunca mais verá um gibi do mesmo jeito..."

Se tem um herói nesta história é Hit Girl, uma garotinha de dez anos armada com duas katanas afiadamente mortais, que junto com o pai maluco (Big Daddy) ajudam Dave Lizewki, um jovem nerd em busca da fama imediata da internet, em sua missão ainda mais maluca: enfrentar a máfia, só na cara (mais de uma vez arrebentada, isso sem contar outras partes do corpo) e na coragem, vestido em um traje de mergulho de látex.

Só não morre porque Hit Girl é a própria cavalaria, melhor dizendo, uma divisão panzer em ataque, que aparece sempre que o fim se aproxima para Dave.

É gibi para adulto, desaconselhável para menores de 18 anos. Mas, com 60 anos, me diverti como criança. Minha mulher viu umas páginas com a Hit Girl em ação e exclamou: "não pode, isso é imoral". E eu disse, "pode sim, é gibi".

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